Mensagem

do Pároco da Igreja Paroquial de Sabariz, Vila Verde

“Há dias em que uma pessoa se levanta, veste-se, faz o que tem a fazer, responde a que lhe pedem e, no entanto, sente que por dentro ficou qualquer coisa por arrumar. Como quando uma casa parece limpa, mas continua com cheiro a fechada. A vida também tem disso. Há momentos nos habituamos a viver com a culpa que nos “rói” por dentro, de uma esperança que falhou tantas vezes que já nem se atreve a levantar a cabeça. Vamos andando, claro. O ser humano é perito em continuar. Mas continuar não é o mesmo que viver.

Na manhã de Páscoa, os discípulos estavam assim. Tinham continuado, mas ainda não viviam de novo. Maria Madalena vai ao sepulcro “quando ainda era escuro”. São João não põem esta frase por acaso. Ainda era escuro no céu, mas também era escuro no coração. Jesus tinha morrido. E quando morre alguém em que pusemos a alma inteira, não é só essa pessoa que parece desaparecer. Desaparece também uma parte de nós: os planos, a confiança, a alegria espontânea, aquela segurança interior que nos fazia respirar melhor. Os discípulos não estavam apenas tristes. Estavam desorientados. Tinham seguido Jesus com tudo, e agora restava-lhes um túmulo.

E é precisamente aqui que Deus faz a sua obra maior. Não quando os discípulos estão fortes, mas quando estão “partidos”. Não quando tudo está claro, mas quando ainda é escuro. Sei que nós, às vezes, imaginamos que Deus só pode agir quando tivermos a vida mais arrumada, a fé mais firme e a cabeça mais limpa. E afinal a Páscoa começa ao contrário: começa no escuro, começa passos pesados, começa lágrimas nos olhos e com perguntas sem respostas.

Maria vê a pedra retirada e corre. Pedro corre. O outro discípulo corre. É curioso: no dia da Ressureição, a Igreja começa a correr.

Não a pousar para uma fotografia piedosa. Corre. Há qualquer coisa de muito humano nisto. Quando a vida nos toca a sério, ou ficamos parados de espanto ou começamos a correr sem saber bem para onde. Aqueles homens correm porque sentem que alguma coisa aconteceu, mas ainda não sabem nomeá-la. E talvez seja assim conosco. Há momentos em que Deus já começou uma coisa nova em nós, mas nós ainda só conseguimos dizer: “Há qualquer coisa diferente…num sei explicar.”

O evangelho de um delicadeza impressionante. Não descreve a Ressureição em si. Não há efeitos especiais, não um relato de reportagem. Há sinais. O sepulcro vazio. Os panos dobrados. A ausência que afinal está cheia de presença. Deus não força a fé. Deixa sinais suficientes para abrir o coração, mas não tantos que dispensem a confiança. O discípulo amado entra, vê e acredita. Pedro vê também, mas fica ainda a caminho. Cada um tem o seu ritmo. E isto também é muito belo. Nem todos chegam da mesma maneira à fé Pascal. Há quem precise de correr mais, há quem precise de chorar primeiro, há quem só compreenda depois de muito silêncio. O importante é não desistir de entrar no sepulcro, isto é, não fugir das perguntas decisivas da vida.

São Pedro, nos Atos dos Apóstolos, fala como testemunha. Diz: “ Nós comemos e bebemos com Ele com ele depois de Ressuscitar”. Isto é fé cristã no seu centro mais puro. Nós não seguimos uma recordação bonita. Seguimos um Senhor Vivo. A Páscoa não é uma maneira poética de dizer que o Amor fica no coração. Isto já seria bonito, mas seria pouco. A Páscoa é muito mais: é Deus a arrancar Jesus do domínio da morte e abrir, para toda a humanidade, uma brecha de vida eterna.

Por isso São Paulo diz aos Colossenses: “Aspirai às coisas do alto”. Não quer dizer: desprezai a terra, esqueceis os problemas, vivei nas nuvens. Quer dizer: Não deixeis que a vossa vida seja governada apenas pelo rés-do-chão. Quem encontrou Cristo Ressuscitado já não pode viver como quem acha que tudo acaba no cansaço, nas contas para pagar e nas chatice da segunda-feira. Sim, a segunda-feira (ou terça-feira) continua a existir, infelizmente não Ressuscitou para outro planeta, mas já não tem a última palavra. A vida do cristão está escondida com Cristo em Deus. E isso muda a maneira de sofrer, de trabalhar, de Amar, de envelhecer, de esperar.

Muda também a maneira de olhar os outros. Porque o Ressuscitado não nos tira do mundo. Envia-nos ao mundo. A prova de que a Páscoa aconteceu não está apenas no túmulo vazio, mas também no coração cheio. Um coração que perdoa quando tinha razões para fechar. Um coração que visita quando era mais cómodo adiar. Um coração que recomeça quando toda a gente dizia: “Já não vale a pena”. Há pessoas que, depois de passarem pela dor, ficam mais duras. E compreende-se. Mas há outras que, tocados por Cristo, ficam mais fundas, mais mansas, mais luminosas. Essas cheiram a Páscoa. E nós conhecemo-las bem. São aquelas pessoas ao pé das quais até o sofrimento respira de outro modo.

Hoje, nesta Solenidade Santa, a Igreja anuncia-nos a notícia mais bela e mais necessária: o túmulo está vazio, mas a vida está cheia. Cristo Ressuscitou. E se Cristo Ressuscitou, então não estamos condenados a arrastar pedras para sempre. A culpa não é o nosso nome definitivo. A tristeza não é a nossa morada final. A morte não é a dona da história. O mal faz barulho, mas não manda no fim.

Talvez cada um de nós tenha hoje uma pedra dentro do coração. A Páscoa exatamente aí. E diz-nos, com a firmeza serena de Deus: Não tenhas medo, ainda é possível recomeçar. Ainda é possível viver. Ainda possível acreditar.

Irmãos e irmãs, não celebramos a Páscoa como quem cumpre uma tradição bonita. Celebremo-la como quem recebe uma vida nova. O Senhor Vive. Está no meio de nós. E porque Ele Vive, também nós podemos levantar-nos por dentro. Aleluia. Ressuscitou o Senhor.”

— Homilia do Sacramento de Eucaristia na Solenidade da Santa Páscoa, à data de 05 de abril de 2026, pelo Padre Carlos Lopes.